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Jazigos

Tem gente que não gosta nem de passar em frente .Outros se benzem e atravessam a rua. Há casos até de pessoas que nunca colocaram o pé lá dentro.

Ladrões costumam pular os muros para furtar adornos de cobre e até para tirar um cochilo.Góticos exóticos também pulam os muros de madrugada para transar sobre as tumbas.  O túmulo de Jim Morrison , vocalista do The Doors, enterrado no cemitério Pére-Lachaise de Paris é um dos lugares preferidos por aqueles que buscam uma transa do outro mundo. Vive repleto de camisinhas no entorno. 

 Um cemitério costuma dar medo em muita gente. Principalmente depois que esse filão de filmes de terror com zumbis e mortos-vivos foi ganhando popularidade.

Para mim funciona como um exercício de humildade,  que me faz perceber o quanto somos transitórios e frágeis. “Ele parecia tão bem e se foi assim de repente” – ouvi recentemente num cortejo fúnebre.

Muita gente deixa saudades, outros já vão tarde. Mas que vão, vão.Todo mundo vai.Para onde? Para algum lugar em que você acredite, pois ninguém vai te questionar, pelo menos dessa vez.

Outra coisa também que me reconforta, nas raras visitas que faço a um dos cemitérios lá de Santos onde estão enterrados meus familiares, é poder estar próximo de meus pais e de meu avô Miguel, que tanto marcou a minha infância. Me sinto leve ao lado deles e fico ali, em silêncio, olhando os nomes deles aplicados na parede de granito, imaginando se um dia alguém vai querer colocar o meu nome ali também, mesmo a contragosto. Naquele espaço também está uma avó que não conheci e um sobrinho que viveu por poucos dias. 

Há uma teoria que diz que, em média, durante a nossa vida nós passamos por 20 a 25 experiências de morte de amigos , familiares e conhecidos. Isso permite que a gente conheça alguns cemitérios espalhados por aí. Há alguns anos, fui a um dos cemitérios mais nobres de São Paulo em solidariedade a um amigo que acabara de perder o irmão. Como cheguei cedo, fui fazer um tour pelo local e observar as belíssimas esculturas espalhadas por todo o lado.

Enquanto andava, fui refletindo sobre aquelas pessoas que só se preocupam em ganhar dinheiro e a se preparar para o futuro, muitas vezes sacrificando o presente de forma mesquinha. E que quando são chamadas a comparecer por lá, no cemitério,  acabam fazendo a  alegria das floriculturas, tamanha a quantidade de arranjos e coroas que recebem in memoriam. Já vi casos de enterros em que foi necessário mais de quatro mini- camionetes só para levar as  tais flores com as inúmeras citações de apreço, principalmente da parte dos herdeiros.

No caso específico do tal enterro,  o morto não era qualquer um. O novo hóspede era o sujeito mais rico do cemitério. Um título que ele, o morto, perseguiu a vida toda, até o fim.Nesse dia, enquanto descia o caixão, pensei: tomara que não seja alérgico, porque as flores vão descer e apodrecer com ele.

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