O marido de uma grande amiga da minha mulher recentemente teve um AVC. Embora jovem e saudável, ficou mais de 3 semanas na UTI em estado grave, entre a vida e a morte. Pouco a pouco, foi reagindo e começando todo um processo de reabilitação.
Essa amiga, criou um grupo de whatsapp composto de pessoas próximas ao casal. Minha mulher,embora não conheça o marido pessoalmente, foi incluída nesse grupo. Ã cada 2 ou 3 dias, a amiga relata a comunicação entre ela e o marido e os progressos que estão ocorrendo. Por se tratar de um assunto delicado, minha mulher prefere ouvir as mensagens à noite, na cama, e eu aproveito para ouvi-las também enquanto me preparo para dormir. Ele não fala, mas já abriu os olhos,mexe as pálpebras, sorri com os olhos, levanta as sobrancelhas e às vezes chora.
São relatos sinceros e comoventes. A luta de alguém que anseia viver, que busca se comunicar, de alguma forma. Na última mensagem que ouvi,ele começou a movimentar um dos braços. Apertou fortemente a mão da esposa e mais uma vez chorou. De medo, emoção,ansiedade ou alegria, sei lá.
Ouvindo a esses depoimentos tão sinceros e puros, fiquei a pensar sobre a fragilidade da nossa existência e da pouca atenção que damos às coisas simples e verdadeiras que estão à nossa volta.
Degrau a degrau, ele reaprende a viver, numa luta diária, ancorado pela sua querida esposa que o ajuda em todos os momentos, em todos os movimentos.
Enquanto isso, nós, sem nos darmos conta, nos distanciamos cada vez mais uns dos outros, do contato, do toque, da conversa, do afago, do carinho.
Nessa pandemia, nos acostumamos a fuçar a vida dos outros , a viver a vida dos outros nas redes sociais, a projetar sonhos improváveis através da vida louca dos influenciadores, como se o nosso cotidiano fosse um eterno BBB, feito de intrigas, voyeurismo, polarização. Perdemos horas do nosso dia abrindo janelas imaginárias e vivendo uma vida que nada tem a ver com a nossa e, com isso, nem nos damos conta que alguém, bem ao nosso lado, pode estar precisando de ajuda, de uma palavra de conforto, de um simples “oi”.
Você de um lado, eu de outro, numa luta fútil. Enquanto aquele casal busca a conexão, numa luta verdadeira , a grande maioria das pessoas se contenta com o estilo BBB de ser, de xeretar , criticar ou idolatrar a vida alheia, porque , da porta para dentro, a magia já não existe mais.